Descrição
Apresentar esta edição de Os Miseráveis, publicada pela Círculo de Leitores em janeiro de 1977, é reencontrar não apenas a monumentalidade da narrativa de Victor Hugo, mas também um objeto cultural que testemunha uma época em que o livro, cuidadosamente encadernado, se afirmava como presença sólida no quotidiano doméstico. Esta edição em cinco volumes, impressa em português e com o rigor editorial que marcou a casa, devolve ao leitor contemporâneo o prazer de folhear uma obra total, onde a literatura se converte em comentário social sem nunca abdicar da força estética.
Hugo, como poucas vezes se viu na história do romance, concebeu uma engrenagem moral que se oferece ao leitor não como pregação, mas como experiência humana. Acompanhamos Jean Valjean, Fantine, Cosette ou Javert como quem observa, pela frincha de uma porta, os movimentos profundos da sociedade francesa do século XIX. No entanto, o que sempre me impressionou — e que esta tradução sabiamente preserva — é a capacidade do autor de transformar conflitos individuais em problemas universais, acessíveis a qualquer leitor que se interrogue sobre justiça, dignidade e redenção.
Num tempo em que a ficção tende a fragmentar-se, Os Miseráveis demonstra que a grande narrativa continua a ser um espaço privilegiado para observar a humanidade. Victor Hugo, atento ao pulsar da rua e ao rumor das instituições, oferece-nos um fresco social que parece sempre mais amplo do que as suas páginas. É a marca dos clássicos: regressamos a eles porque continuamos a sentir que nos falam, não de modo condescendente, mas com a gravidade de quem compreendeu a fundo o sofrimento e a esperança do homem comum.
Esta edição possui ainda um valor bibliográfico particular. Foi concebida num momento em que a editora procurava democratizar o acesso aos grandes textos da literatura mundial, cultivando o leitor com edições robustas, pensadas para sobreviver ao tempo. A solidez material destes volumes reforça a solenidade da obra, como se dissesse ao leitor: “Isto deve ser lido com tempo, com atenção, com entrega.”
A tradução portuguesa aqui apresentada — clara, cuidada, e sensível às volutas do original — permite que a voz de Hugo chegue a nós sem ruído. A fluidez do discurso, os longos parágrafos meditativos, as digressões que iluminam o contexto histórico: tudo se mantém com uma fidelidade que honra tanto o autor quanto o leitor. É uma edição pensada para reler, para sublinhar, para revisitar em diferentes momentos da vida, descobrindo sempre novas tonalidades no drama dos personagens.
Por tudo isto, esta coleção representa mais do que uma simples oportunidade de aquisição; é uma forma de manter viva a tradição do grande romance humanista. Ao adquirir esta primeira edição encadernada em cinco volumes, o leitor leva consigo não apenas um marco da literatura universal, mas também um pedaço da história editorial portuguesa — e, se me permitem a observação, leva um companheiro para toda a vida, daqueles que nunca esgotamos verdadeiramente.
Estado impecável.















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